O céu – Parte II

Deus disparou uma corrida pelo dique em direção a água. A madeira velha rangia ao passo pesado e forte dos seus pés descalços, até ele pular e cair de cabeça no mar.
Um silencio apreensivo tomou conta do ambiente, a excentricidade e extroversão de Deus me assustava um pouco, nunca o imaginei daquele jeito. Pelo contrário pensei que no céu encontraria um velho ranzinza cheio de formalidade que nos manteria um metro afastado, e poderíamos nos ajoelhar a sua frente, e nos arrastarmos (como muitos em sua vida terrena no chão de algum lugar), cheios de súplicas e pedidos de perdão. Não imaginei este Deus sorridente, misterioso e envolvente. Não este Deus próximo. Não este.
O silêncio momentâneo e a luz dourada como de um fim de tarde de um dia que não se acaba, foi interrompido por uma enorme perola que boiou na água alguns segundos antes de um solavanco arremessá-la em nossa direção. Caindo bem próximo a mim senti o tremor do impacto na terra e antes mesmo de poder me aproximar dela, outra já havia sido arremessada em outro grupo ali perto. E foram muitas, em alguns momentos uma verdadeira chuva de pérolas gigantes saia do mar em nossa direção. Gritamos primeiramente assustados depois de diversão. E pensei por um momento que realmente tudo o que é perigoso era mais divertido, e, parecia que Deus sabia disso.

Ele saiu da água dando ordens:
– Levem essas pedras ao campo de que viemos. Vamos continuar o projeto do nosso amigo, os portões de pérola. – Um brilho envolveu seus olhos nesse momento. – Que idéia brilhante…
Comecei a perceber aquelas pessoas. Não eram poucos, era uma multidão tão vasta, mas ao mesmo tempo tão sinérgica e entusiasta que eu tinha a impressão que era um pequeno grupo. E as vezes parecia que éramos…
– Só eu e você. – Deus interrompendo meu pensamento.
– Sim! Parece um sonho onde tudo é fruto do meu inconsciente.
– E se for?
– Vocês não existiriam.
Preciso dizer que por nenhum momento duvidei de que aquilo era um sonho. Por mais longe da realidade eu pudesse estar, sabia que aquela era a realidade de agora, não como eu a conhecia, mas como Deus a fez.
– Venha comigo, vou te levar a um lugar.
Deus fez o convite irrecusável com um belo sorriso nos lábios. Os seus olhos falavam mais que os lábios, mas impossível descrever o olhar de Deus, se você não puder ter este olhar, eu sinto dizer, mas você nunca saberá pra que tem emoções. Descobri naquele olhar que tudo que pudesse desabrochar em mim, tudo o que foi feito em mim para sentir foi a razão desse olhar.

Olhando os passos que marcavam a areia, Deus começou a falar:
– Você já se perguntou muitas vezes qual o sentido de sua existência na sua vida terrena.
– Era estar com você, eu penso agora.
– E por que você sonhava?
– Como assim? Que tipo de sonho você fala?
– Você entendeu, e achou a pergunta sem nexo com o assunto que falávamos, mas fui claro o bastante pra que você pudesse entender.
Estava claro que ele não gostava de rodeios numa conversa. De que sonho ele falava? O das ambições e tudo o que desejávamos, ou do sonho inconsciente durante o sono. Sim era deste ultimo, tive certeza quando ele acenou com a cabeça enquanto pensava nisso.
– Eu sonhava porque… Não sei, imagens gravadas na minha mente eram armazenadas em algum neurônio da minha cabeça, e imagens iam sendo criadas e…
– Eu fiz o ser humano capaz de dormir e dormindo capaz de sonhar. Porque capaz de sonhar?
– Ah Deus, isso está além da minha capacidade de deduzir.
– Vamos lá pense. Sempre gostei de ler seus pensamentos.
– … Verdade?
– E eu minto? Respostas criativas. Eu me identifico com a criatividade.

Paramos diante de uma grande montanha, arvores rodeavam-na e em algumas partes podia-se ver exposta a rocha de que ela era feita.
– Uma montanha se forma na Terra numa zona de pressão. – começou a me explicar – e se ergue tão rápida quanto é pressionada subterraneamente. Anos, décadas, milênios para se formar e uma eternidade para aplainá-la outra vez. Um dia um rapaz muito querido meu, estava no meio de uma grande guerra e acampou com seu exercito a beira de uma montanha como esta. Não só o seu país guerreava, mas sua vida pessoal estava em guerra. Seus problemas se erguiam e se mostravam tão grandes como esta montanha. E naquela noite ele olhou para o alto e disse as palavras que mais expressavam seu absoluto desespero e sua fé imbatível. “Ergo os olhos para os montes de onde me virá o socorro”.

Me lembrei que eu também já havia dito essas palavras. Ele me abraçou subitamente. E juntos de seus braços me envolvendo asas surgiram por trás de sua cabeça desdobrando para os lados e se ergueram no alto, majestosamente. Num movimento rápido bateram para baixo e fomos lançados ao vôo. O vento batia no rosto, o barulho das asas ensurdecia os ouvidos, mas estar envolvido nos seus braços era de um conforto imenso e nenhum medo havia.
Estávamos no topo da montanha. O azul do céu se escurecia e estrelas brilhantes começavam a surgir bem maiores do que via na terra. Ele me soltou e já não tinha mais asas, se aproximou muito dos meus ouvidos até seus lábios o tocarem – Por que sonhavas? – perguntou.

Uma explosão no céu de estrelas, tão grandes como uma pessoa. Eram seres. E me dei conta de que estava no paraíso e não havia visto um anjo sequer, até aquele momento. Agora eles rodeavam o céu batendo suas enormes asas. Ora brilhavam como estrelas, ora nítidos como anjos. Voando e cochichos musicais de uma palavra. Uma melodia que coral terrestre jamais ouvi cantar. Algo meio dito, meio cantado: Hosana. Hosana. Hosana nas alturas…

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