A revolta das flores

flowers

Houve um dia que as flores não brotaram e as que existiam foram embora.

E porque nesse dia não havia flores as floriculturas não abriram, nos funerais usaram flores de plástico, e alguns casamentos foram cancelados porque as noivas se recusaram a se casar numa igreja sem flores. Nos canteiros da cidade só se via o verde das plantinhas, nos jardins, zoológicos, praças, shoppings, casa de idosos e em lugar algum não se encontrava uma flor sequer.

Os biólogos não explicavam o fenômeno inédito: “Estamos diante de um fato nunca visto pela ciência, se isso não se resolver logo não haverá mais frutos, e sem frutos não haverá sementes… e será o fim de todas as espécies de plantas do planeta”. Os ambientalistas se reuniram pra entender de quem era a culpa: “Será que foi as emissões de CO2? Ou foi a poluição do solo? Não pode algo assim atingir o mundo nessa proporção… Resíduos radioativos?”
Governadores tentavam acalmar a população com anúncios na TV: “Peço para que todos se mantenham sob controle que este fato estranho já está sendo analisado por uma equipe competente. E logo teremos uma explicação plausível.”

E isso repercutiu o mundo e foi assunto pra conversa em fila de banco, em mesa de bar, ganhou até tweets e foi bastante compartilhado no Facebook. Equipes com vários especialistas em vários assuntos se reuniram em busca de explicações.  Houve manifesto religioso. E conclusão nenhuma.

Porque no fundo todos sabiam da verdade.

A verdade era que o mundo se tornou um lugar muito hostil para as flores viverem. Não pela poluição, mas porque espalhar beleza e graça neste mundo feio se tornou algo sem sentido. E as flores (como não são loucas) resolveram partir para um mundo mais belo. Onde não seriam ignoradas na varanda por longos dias, onde teriam sempre uma senhora de voz doce pra conversar com elas e de vez em quando cantarolar pra elas brotarem. Um mundo que ao invés de serem criadas em massa, vendidas em massa, isoladas, esquecidas e depois destruídas juntas, elas seriam preservadas e terem seu ciclo de vida adorado como um milagre.

Quando o mundo percebeu isso, caiu em depressão.

As abelhas desmontaram as colmeias, sentaram na beira da estrada e foram mendigar. As borboletas voltaram ao casulo pra virar lagarta novamente. O fabricante de plástico se animou já que poderia lucrar na venda de flores de plástico, mas depois sentou triste na cadeira, se deu conta da perda inestimável e que material sintético algum poderia ocupar o lugar das flores no mundo. Foi difícil pra professora explicar para as crianças do jardim de infância, porque o sumiço das flores implicava ter que explicar a maldade humana àqueles seres tão puros. O romantismo que já era pouco, acabou de vez na noite, sem aquele vendedor de flores com bilhetinhos cafonas de amor perambulando pelos bares.

Foi a noite mais feia, sem graça  e longa de todos os tempos.

Na manha seguinte as flores voltaram. Surgiram de novo explicações dos biólogos, ambientalistas, filósofos e donos de bar. Mas todo mundo sabia, no fundo, que elas voltaram por meia dúzia de pessoas que regaram de lágrimas os canteiros vazios de flor. Voltaram pelos poetas que só escreveram naquele dia poemas tristes. E os romances que não começaram porque os apaixonados se distraíram com o cenário de terror.
Voltaram pelos milhares de “Ana Flor”, “Maria Flor”, “Flor”, que nasceram naquele dia, e suas mães que se entristeceram ao pensar que suas filhinhas cresceriam num mundo sem a beleza das flores. Pelos insetos de jardim desolados, amargurados, desiludidos de suas deusas partirem para a glória e os abandonarem aqui, junto a nós, num mundo cinza que cheira a sal.

E por fim, voltaram por que ainda havia o belo nos olhos de quem as via.

Porque ainda existia admiração, delicadeza e preservação.

E por que um dia deixaram de existir no mundo para brotarem no canteiro do coração de alguém.

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5 pensamentos sobre “A revolta das flores

  1. gostaria eu que as flores deixassem de existir por um dia… para ver se as pessoas caíam em si e deixavam de as usar como objetos decorativos mortos. Gosto de flores vivas, juntas ao caule, às folhas, à raiz.

  2. Tulipas – são as minhas preferidas ;)

    e eu gosto muito do título do teu texto. Com essa minha imaginação fértil, já imaginei várias delas zangadas, muito zangadas.Tipo a carinha da menina superpoderosa.

    okay, okay. vou dormir que já estou delirando. 03h45, câmbio, desligo. beijo!

    • Acabei de olhar pra um vasinho de flores aqui em casa, que minha mãe trouxe, e está meio “abandonada”… e acho que elas me olharam desse jeito. Zangadíssimas! rs

  3. Flores! Gosto tanto de flores. E esse gostar por vezes tem de ser reprimido, pelo ridículo imposto ao gostar de flores. Pela sexualidade posta à prova dos homens que gostam de flores. Pela vergonha que é entrar dentro do ônibus lotado carregando flores. Semana passada me apaixonei por um lírio branco gigante na floricultura do mercado. Comprei. Vim para casa de táxi, quase que escondido, antes que colocassem olhos grandes nas minha flores. Antes que nunca mais exista flores.

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