Neste momento

Ele é o grande amor da sua vida. Vocês se encontram após o trabalho e tomam um chope de 530 ML sem se preocupar em voltar pra casa, porque ninguém te espera em casa. Ninguém além das pilhas de roupas sujas, louças sujas, tarefas agendadas e pendentes, nada além de uma vida organizada ao redor de uma pessoa, uma única pessoa, você. E como se essas coisas, e essa casa, e você não existisse, vocês chegam na metade do copo juntos intercalando histórias, e você observa que nestas histórias há algo mais que faz prender a sua atenção, algo que brota de uma história pra outra, da dele pra sua. E você o observa… você o observa segurar o copo, você o observa tirar o celular do bolso e responder alguma mensagem que você não faz ideia do conteúdo, embora saiba que ela diz algo do tipo que você não é tão importante pra ele quanto ele é importante pra você, afinal você não pegaria seu celular nem se ele explodisse de vibrar no seu bolso, mas a mensagem não diz isso.. não em letras. E você apenas decide parar de pensar nisso, apenas parar. Mas aí já estão tomando um outro chope, e dessa vez ele pediu um menor. O que é uma pena pois a cerveja estava tão gostosa, a conversa também estava tão gostosa, o tempo que passam juntos se torna um banquete e você começa a lamentar o copo se esvaziando ao mesmo tempo que o devora com os olhos. Não tem problema, vocês beberam demais e mesmo que dois copos não seja demais, embora pra você seja, não há ninguém em casa esperando. No final dos dois chopes já não há tantos assuntos como no começo e o silêncio começa a intercalar a conversa. As palavras diminuem conforme os pensamentos aumentam. E você tem alguns pensamento sujos, confessa. Não tem problema. Nesse momento, brota um monte de coisas dentro de você que você prefere desviar o olhar por várias vezes, e as vezes se deixa encontrar no olhar dele, porque você não tem medo vai entender. Você só quer saber o que é bom ou o que é ruim, e não tem ninguém em casa pra te ajudar. Ninguém pode te culpar por isso.
Hoje talvez ele te companhe. Talvez ele te abandone. Das duas opções nenhuma será a primeira, mas você prefere observar o momento. Porque nesse lugar chamado momento é o único lugar onde a vida acontece.

Desculpas, aceitas?

Dizer que tenho alguma intenção com este blog é contrariar a própria intenção dele existir, que é não ter intenções. Queria algo que simbolizasse o ininterrupto e também a liberdade, queria escrever – ou dizer coisas – sem me preocupar com as normas, as criticas, técnicas, usando o básico da ortografia “entendível” e assim de uma forma simplista e próxima conseguir expor o meu eu.
Sou muito mais que um homem que escreve, tenho uma vida que continuamente me trás percalços e dádivas. Também não sou mais interessante que o último homem a quem você deu bom dia hoje. Sou (e me farei) simples. Talvez nessa época tão cheia de excessos, com tanta gente sensacional preenchendo lacunas na sociedade, nós, os simpleses, seremos a parte especial do mundo. Aqueles que os outros olham e pensam “que gente estranha… de onde vêm?”.
Talvez este blog seja isso, mas nada intencionado.

Você e ela afinal

Cada um vive sua solidão à sua maneira. Eu tenho a minha por companheira. Sim… no final das contas – e eu poderia dizer “meu amigo” mas não gosto disso – será você e ela. Pois estou aqui, neste meu blog que me ouve a tantos anos, e por tantas mudanças! e com minha caneca cheia de caipirinha de vinho ao lado da minha solidão, com uma certa condescendência eu me rendi à ela, e a preservo comigo.
Sim, pra que evita-la se ela vai estar sempre comigo… solidão pra mim é esse estado que a gente se encontra naquela “condição existencial” ou seja lá como chamam, mas se trata de que ninguém e eu digo n-i-n-g-u-é-m mesmo vai conseguir sentir aquilo que você está sentindo. Ou seja, você pode estar feliz, triste, com raiva, tímido, tenso, e a única pessoa que vai saber exatamente o que se passa ai será você.
Então estou aqui, sozinho, talvez porque meu signo me faça sentir um lixo quando minha companhia não é priorizada. Talvez por causa dos complexos, ou dessa bebida que me sobe a cabeça. NÃO SEI. Sei que onde eu estivesse hoje, ela estaria comigo, agradecido solidão por ser tão minha, conhecer-me tão bem…

Mas é uma pena você ser tão calada. Isso não vou negar.

E estou aqui.

Um dia eu tive um sonho.
E nesse sonho eu estava numa estrada pilotando a minha moto em alta velocidade.
Todo o cenário era um deserto de areia dourada e o céu estava nublado.
Eu seguia na estrada sentindo o vento bater no rosto.
Então aconteceu uma movimentação nas nuvens, e uma tempestade se formou.
E do meio dessa tempestade desceu duas colunas de nuvens na estrada a minha frente.
Seria prudente eu parar ou retroceder o meu caminho…
Mas perderia toda a emoção!
E eu acelerei…

Selvagem

        Mal o sentimento pôs o primeiro pé pra dentro de casa e ele já foi estendendo as cortinas da sala, arrumando as almofadas e alinhando os papéis de cima da mesa de centro. “Senta aqui coração” disse enquanto dava dois tapinhas no sofá. O sentimento ali parado na porta, e ele esticando a camisa, tirou a gravata, passou a mão pelo cabelo, tirou o óculos e começou a limpar as lentes.
“Pode entrar, vou ligar a tv.” e saiu ligeiro a procura do controle remoto abrindo umas gavetas, encontrou um livro numa delas que logo pôs na estante no meio de outros livros.
Agora olhava de um jeito amável para o sofá com um leve sorriso desenhado em seu rosto que logo foi sumindo a medida que se agachava devagar, e com muito cuidado, retirou um fio de cabelo de cima do estofado. Saiu para outro recinto segurando o fio a frente do corpo, abriu a lixeira e o largou ali, batendo uma palma da mão na outro como se houvesse restos de sujeira pra cair no lixo.
        Sorriu para o sentimento, e este retribuiu dando um passo para trás com um olhar amedrontado.
“Não se vá!”. Tarde demais. Ele já havia batido a porta e fugido pra longe daquela casa arrumada.

Deus já ouviu falar de mim?

Me custa acreditar que um dia Deus vai dizer a metade dos homens que eles foram condenados a perecer no inferno. Não por acreditar na bondade de Deus, que é grande, não maior que a sua justiça, porém grande. Mas por acreditar na sua Onisciência e constante presença. Acho confortável demais julgar de cima de um trono sobre as nuvens, seria justo – do tamanho de Deus – se no grande julgamento Ele fosse tão simples como um de nós. Não paro de pensar que Deus seja simples, veementemente acredito que Deus seja simples, que não é um livro de regras, ou essas tantas denominações religiosas. Porque para mim Deus é um religioso insubordinado. Talvez Deus seja tão simples, tão simples, que nos surpreenderia sendo um de nossos vizinhos. Talvez Deus fosse aquele colega de classe ou de trabalho sempre a espreita nos observando. Talvez Deus fosse alguém nos bastidores da nossa vida. E Deus fosse quem passeasse no jardim da nossa casa todo final de tarde pra saber como andam as coisas. Me custa acreditar que Deus seja menos do que alguém tão próximo, porque como julgaria que não o amamos se não nos desse a forma de amá-lo?

Cigarro

Ontem você bateu na minha mão e derrubou o meu cigarro. Não importa, acendi outro mentalizando você. Deixo aquela guimba pra outro desesperado.
Porque tudo quando dá errado, não tem caminho, não tem telefone, não tem uma moeda no chão… Mas tem sempre uma bituca de cigarro pra aliviar a dor.

O movimento

Beleza. É disto o que se trata. É isso que os teus olhos e os meus querem.
A beleza é o que faz as palavras serem notadas. É o que desconcerta o já conhecido. É o que toca, seja lá o que for de tocável, com graça e meiga exuberância.
O “mais” belo não importa.
O que é belo também não.
Não falamos de padrões, ou comparações, ou objetos da beleza.
Falamos do belo exaltando com toda sua benevolência o tão mais lindo de tudo.
Nossa proposta é tornar leve o fardo de viver num mundo de obsessões. É de por conteúdo nos parnasianos. É de exaltar a beleza existente em tudo. Diminuir o desespero do tempo, contido em agendas, anúncios e reuniões de trabalho.
Queremos o mundo mais belo que faremos por merecer. Beleza. Não importa onde esteja.
Buscaremos em tudo sua mais pura beleza.

Precisando de um porre inspirativo

Fui ao mercado e peguei tequila, cerveja e vodka. Tudo em pequenas doses, porque junto da necessidade de um porre tenho o bom senso, ou – puta merda- o medo – medo do que o porre possa me causar.
E estive andando nos corredores do supermercado com as garrafinhas na cesta pensando em algo pra acompanhar. E de repente me bateu um desgosto de me embebedar, por que parecia que a vida não ia bem, e a vida ia, e eu andando na sessão de bebidas do mercado parecia um “sem ninguém”, e eu não era, e logo sairia daquele mercado de mãos dadas com alguém, levando umas doses de álcool, pra quem sabe mais um porre. Desgosto. Precisando mesmo de um amor. De uma paixão estonteante, daquelas de fazer perder o embalo, cair bêbado na cama sem ter bebido e ficar inebriado assim por um olhar, um beijo, um alguém. E dito assim parece não haver alguém, e há. Desgosto.

Se eu estivesse sozinho seria mais fácil. Entraria naquele corredor e apanharia a garrafa mais bonita, nem precisaria misturar, nem ser pequenas doses, uma garrafa de vinho pra passar a noite e já basta. Por que quando se coloca mais um personagem na historia tudo se complica? Adão vivia bem até colocarem Eva no seu caminho e pronto tudo complicou, é assim desde o início. É assim até agora. Talvez fosse mais fácil se eu estivesse só, mas eu não estava, e eu não preciso.

            “Peguei tequila, cerveja e vodka, o que você quer beber?”
            “Eu quero você… num copo com gelo… mexido e não batido.”

Um sorriso encabulado se seguiu, um aperto de mão, um aperto de bumbum. To precisando mais do que me embebedar, to precisando ser o porre de alguém. Então eu entendi que talvez estava desgostoso porque não tava sendo provado puro, tava ali me misturando com outras coisas, e não precisava. Dois cubos de gelo mexidos e já basta. Sem alterar o meu gosto. Só pra ser provado assim, em pequenas doses…

A cicatriz do melhor goleiro

Há tempos não assisto um jogo do Corinthians. Desde que entrei neste mundo literário (livros, jornais, apostilas, conteúdo) ou nesse mundo de relacionamentos, não sei, apenas sei que não me interesso mais por futebol.
Mas quando eu era uma criança era bem diferente, eu gostava. Era o mais jovem do time da minha rua e também, modestamente falando, o melhor goleiro.
Os outros garotos não gostavam de ficar no gol porque eram ruins. Eu gostava.
E eu não tinha medo da bola, eis o segredo dos bons goleiros: eles não tem medo da bola.
Outro fato sobre eles é que enquanto o time trabalha pra fazer a bola “rolar” no campo, o goleiro fica alí ameaçando o movimento, pronto pra ter a bola na mão, porque para o goleiro importa que a bola pare.
Uma vez defendi o gol com a cara.
Foi um chute muito forte e repentino direto no gol, mas meu rosto estava no caminho, então aquela bomba bateu direto no meu rosto e fui arremessado pra trás com a cabeça batendo na trave do fundo. Sangrei em todo interior do gol, uma defesa dolorosamente perfeita…