O tarot não convencional

          Essa semana após um longo período de tempo tive um insight poderoso envolvendo cartas de tarot, filmes trash e zombies. Sou facilmente atraído pelo não convencional e acredito que ele tem muito a nos ensinar. Somos, como seres humanos, seres de hábitos e nos acostumamos a seguir ritos, rotinas, convenções sociais, em grande parte sem questionar as razões por trás disso. O tarot questiona todos os significados, do símbolo mais trivial ao gesto mais elaborado, o arcano é uma incógnita. Cabe a nós a atitude da descoberta, a percepção simbólica, a ouvir a intuição e transcender o real.
Já o universo apocalíptico dos filmes de zombies servem como ingrediente secundário do prato principal (ou primário em alguns filmes como Eu sou a lenda “I am Legend” com Will Smith) a reflexão sobre o que nos torna realmente humanos e não animais. Seriam as convenções sociais ou existe um sentimento “humano”? Por que não somos seres apenas horizontais nascendo, se alimentando, crescendo, reproduzindo e morrendo? É possível se manter humano quando a humanidade se extingue, quando se luta pela sobrevivência feito um animal? Se sim, porquê?

SevenSwords

Desonestidade ou Sobrevivência?

Quando encontrei o Tarot Zombie de Paul Kepple e Stacey Grahm em uma loja online foi amor à primeira vista. Recorri a uma comunidade de tarólogos para saber a opinião de alguém que os possuía e as respostas não me agradaram. Sobre a qualidade do material ótimo custo benefício, mas senti que subestimaram o poder desse oráculo fadando o uso em festas e leituras despretensiosas pelo seu humor particular. Mais um ponto para a minha paixão por ele: eu amo humor particular e despretensão!

          Pois bem, inicio minha vivência com o  Tarot Zombie com um ritual para a troca de energia mútua feito há muitos anos e sem a devida reflexão. Para esse ritual só é necessário escolher um filme e assistir juntos. Achei um ritual apropriado para um tarot não convencional, o importante de um rito é que faça sentido para quem o faz, e sabemos que um filme em casa é uma porta aberta para grandes intimidades. O filme em questão abrange o tema do Tarot e se chama Planeta Terror.

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Planeta terror (Planet terror) é um filme de 2007 dirigido por Robert Rodriguez com contribuições de Quentin Tarantino. Mostra várias histórias de personagens arquetípicos de filmes trash da década de 70, se desenvolvendo num cenário pré apocalíptico com o vazamento de um vírus que coloca em risco a espécie humana.

          “Preciso de uma mudança radical em minha vida” –  Com essas palavras, enquanto fecha o longo zíper de sua bota, Cherry Darling abandona seu emprego de dançarina de go-go em uma boate. Minutos antes tinha dançado sensualmente em volta de uma barra com espelhos ao fundo que a projetavam em vários ângulos. Cherry tem pernas bonitas e dançava de maneira a expor sensualidade e habilidade com elas. Ao final da música, ela senta no palco e chora fitando o público que a observa.
A habilidade de dançar go-go ela chamava de “talento inútil número 12”. Quantos talentos inúteis pensamos que temos não é mesmo?. E não por acaso, 12 é o número do arcano pendurado.

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Quando se tem pernas e talentos.

QUANDO UMA JORNADA SE INICIA DE FATO?

Ligamos ao Tolo o arcano de número 0 o início de uma jornada, mas ele também é considerado um coringa no tarot e assim se encaixaria em qualquer momento de uma jornada sem deixar de representar o início de algo. Não se sabe se o arcano 12 se pendurou sozinho ou foi obrigado a estar ali, assim como não se revela no filme se Cherry Darling começou a carreira em boates como dançarina de go-go (e não stripper pois são diferentes como ela mesma ressalta)  por escolhas próprias ou infortúnios do destino. Volto a questão: quando uma jornada se inicia de fato? No primeiro passo ou na intenção deste passo? O pendurado nos chama a atenção para olhares distintos sobre uma mesma coisa. As mudanças não seguem uma ordem, ora somos pendurados para só então depois ver corretamente, e ora o mundo fica de ponta cabeça cabendo a nós se ajustar para uma nova maneira de olhar. Eis o inicio da jornada do pendurado: a reinvenção. As pernas da dançarina e seu talento inútil número 12 – doze igual o arcano Pendurado – trarão o desafio do herói para Cherry.

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          Após o incidente na estrada acontece o encontro inesperado com El Wray, seu último caso de amor, trazendo a tona questões ainda não resolvidas mas que são necessárias para Cherry continuar sua jornada. Porque o abandono? Porque os dois não deram certo? Porque devo pensar com o coração ou seria melhor usar a cabeça? Não seria esse o grande dilema do Arcano 6 – Os Enamorados? Colocar racionalidade onde deveria haver sentimentos? El Wray segue dirigindo com Cherry na carona mas um acidente na estrada acaba colocando a vida dela em risco, os zumbis retiram Cherry das ferragens e a levam para a escura floresta. El Wray bravamente a salva a vida, mas tarde demais para salvar sua perna que fora devorada pelos mortos vivos.

Grind House
Convencionou-se satanizar o não convencional, isto é, priva-lo de aceitação e integração. Qualquer deficiência logo é vista como um aspecto inferior, quando não em épocas mais sombrias da humanidade privava-se até mesmo da vida. O mau foi projetado como uma figura  monstruosa, com chifres, como bestas, insanas, em desordeiros e situações de desordem. Um tarot com tanta personalidade, porém não convencional, logo é fadado ao entretenimento e a falta consciência que por trás dos símbolos há uma grande consciência coletiva, onde todos somos um. Segundo um interessante artigo que li sobre a complementariedade dos arcanos (talvez outro dia publique aqui), o arcano que complementa nosso herói aqui retratado como o pendurado, é a Força.

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         O arcano da misteriosa dama a por a mão sobre a fera. A força retrata o que temos de mais forte, a força que encontramos quando sintonizados na nossa essência. Quando despimos os olhos da aparência, e enxergamos além. O que o pendurado enxerga de cabeça para baixo que faz surgir uma aura em torno de sua cabeça? Cherry não teve tempo para se lamentar, embora tenha se lamentado um pouco. O mundo havia mudado e zombies saiam de todas as salas do hospital, famintos por devorar carne humana. O mundo estava de cabeça para baixo. No mais o filme retrata a ação para sobreviver e a construção de uma heroína que almejava uma mudança, e foi arrastada pelas pernas para essa mudança. Para ficar bem claro, olhe para as pernas dela.

 

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De dançarina a gun woman.

As ilações com este tarot só estão começando.

A história de Cherry Darling? Assista ao filme – é ótimo!

Mesmo.

 

Neste momento

Ele é o grande amor da sua vida. Vocês se encontram após o trabalho e tomam um chope de 530 ML sem se preocupar em voltar pra casa, porque ninguém te espera em casa. Ninguém além das pilhas de roupas sujas, louças sujas, tarefas agendadas e pendentes, nada além de uma vida organizada ao redor de uma pessoa, uma única pessoa, você. E como se essas coisas, e essa casa, e você não existisse, vocês chegam na metade do copo juntos intercalando histórias, e você observa que nestas histórias há algo mais que faz prender a sua atenção, algo que brota de uma história pra outra, da dele pra sua. E você o observa… você o observa segurar o copo, você o observa tirar o celular do bolso e responder alguma mensagem que você não faz ideia do conteúdo, embora saiba que ela diz algo do tipo que você não é tão importante pra ele quanto ele é importante pra você, afinal você não pegaria seu celular nem se ele explodisse de vibrar no seu bolso, mas a mensagem não diz isso.. não em letras. E você apenas decide parar de pensar nisso, apenas parar. Mas aí já estão tomando um outro chope, e dessa vez ele pediu um menor. O que é uma pena pois a cerveja estava tão gostosa, a conversa também estava tão gostosa, o tempo que passam juntos se torna um banquete e você começa a lamentar o copo se esvaziando ao mesmo tempo que o devora com os olhos. Não tem problema, vocês beberam demais e mesmo que dois copos não seja demais, embora pra você seja, não há ninguém em casa esperando. No final dos dois chopes já não há tantos assuntos como no começo e o silêncio começa a intercalar a conversa. As palavras diminuem conforme os pensamentos aumentam. E você tem alguns pensamento sujos, confessa. Não tem problema. Nesse momento, brota um monte de coisas dentro de você que você prefere desviar o olhar por várias vezes, e as vezes se deixa encontrar no olhar dele, porque você não tem medo vai entender. Você só quer saber o que é bom ou o que é ruim, e não tem ninguém em casa pra te ajudar. Ninguém pode te culpar por isso.
Hoje talvez ele te companhe. Talvez ele te abandone. Das duas opções nenhuma será a primeira, mas você prefere observar o momento. Porque nesse lugar chamado momento é o único lugar onde a vida acontece.

Desculpas, aceitas?

Dizer que tenho alguma intenção com este blog é contrariar a própria intenção dele existir, que é não ter intenções. Queria algo que simbolizasse o ininterrupto e também a liberdade, queria escrever – ou dizer coisas – sem me preocupar com as normas, as criticas, técnicas, usando o básico da ortografia “entendível” e assim de uma forma simplista e próxima conseguir expor o meu eu.
Sou muito mais que um homem que escreve, tenho uma vida que continuamente me trás percalços e dádivas. Também não sou mais interessante que o último homem a quem você deu bom dia hoje. Sou (e me farei) simples. Talvez nessa época tão cheia de excessos, com tanta gente sensacional preenchendo lacunas na sociedade, nós, os simpleses, seremos a parte especial do mundo. Aqueles que os outros olham e pensam “que gente estranha… de onde vêm?”.
Talvez este blog seja isso, mas nada intencionado.

Você e ela afinal

Cada um vive sua solidão à sua maneira. Eu tenho a minha por companheira. Sim… no final das contas – e eu poderia dizer “meu amigo” mas não gosto disso – será você e ela. Pois estou aqui, neste meu blog que me ouve a tantos anos, e por tantas mudanças! e com minha caneca cheia de caipirinha de vinho ao lado da minha solidão, com uma certa condescendência eu me rendi à ela, e a preservo comigo.
Sim, pra que evita-la se ela vai estar sempre comigo… solidão pra mim é esse estado que a gente se encontra naquela “condição existencial” ou seja lá como chamam, mas se trata de que ninguém e eu digo n-i-n-g-u-é-m mesmo vai conseguir sentir aquilo que você está sentindo. Ou seja, você pode estar feliz, triste, com raiva, tímido, tenso, e a única pessoa que vai saber exatamente o que se passa ai será você.
Então estou aqui, sozinho, talvez porque meu signo me faça sentir um lixo quando minha companhia não é priorizada. Talvez por causa dos complexos, ou dessa bebida que me sobe a cabeça. NÃO SEI. Sei que onde eu estivesse hoje, ela estaria comigo, agradecido solidão por ser tão minha, conhecer-me tão bem…

Mas é uma pena você ser tão calada. Isso não vou negar.

E estou aqui.

Um dia eu tive um sonho.
E nesse sonho eu estava numa estrada pilotando a minha moto em alta velocidade.
Todo o cenário era um deserto de areia dourada e o céu estava nublado.
Eu seguia na estrada sentindo o vento bater no rosto.
Então aconteceu uma movimentação nas nuvens, e uma tempestade se formou.
E do meio dessa tempestade desceu duas colunas de nuvens na estrada a minha frente.
Seria prudente eu parar ou retroceder o meu caminho…
Mas perderia toda a emoção!
E eu acelerei…

Selvagem

        Mal o sentimento pôs o primeiro pé pra dentro de casa e ele já foi estendendo as cortinas da sala, arrumando as almofadas e alinhando os papéis de cima da mesa de centro. “Senta aqui coração” disse enquanto dava dois tapinhas no sofá. O sentimento ali parado na porta, e ele esticando a camisa, tirou a gravata, passou a mão pelo cabelo, tirou o óculos e começou a limpar as lentes.
“Pode entrar, vou ligar a tv.” e saiu ligeiro a procura do controle remoto abrindo umas gavetas, encontrou um livro numa delas que logo pôs na estante no meio de outros livros.
Agora olhava de um jeito amável para o sofá com um leve sorriso desenhado em seu rosto que logo foi sumindo a medida que se agachava devagar, e com muito cuidado, retirou um fio de cabelo de cima do estofado. Saiu para outro recinto segurando o fio a frente do corpo, abriu a lixeira e o largou ali, batendo uma palma da mão na outro como se houvesse restos de sujeira pra cair no lixo.
        Sorriu para o sentimento, e este retribuiu dando um passo para trás com um olhar amedrontado.
“Não se vá!”. Tarde demais. Ele já havia batido a porta e fugido pra longe daquela casa arrumada.

Deus já ouviu falar de mim?

Me custa acreditar que um dia Deus vai dizer a metade dos homens que eles foram condenados a perecer no inferno. Não por acreditar na bondade de Deus, que é grande, não maior que a sua justiça, porém grande. Mas por acreditar na sua Onisciência e constante presença. Acho confortável demais julgar de cima de um trono sobre as nuvens, seria justo – do tamanho de Deus – se no grande julgamento Ele fosse tão simples como um de nós. Não paro de pensar que Deus seja simples, veementemente acredito que Deus seja simples, que não é um livro de regras, ou essas tantas denominações religiosas. Porque para mim Deus é um religioso insubordinado. Talvez Deus seja tão simples, tão simples, que nos surpreenderia sendo um de nossos vizinhos. Talvez Deus fosse aquele colega de classe ou de trabalho sempre a espreita nos observando. Talvez Deus fosse alguém nos bastidores da nossa vida. E Deus fosse quem passeasse no jardim da nossa casa todo final de tarde pra saber como andam as coisas. Me custa acreditar que Deus seja menos do que alguém tão próximo, porque como julgaria que não o amamos se não nos desse a forma de amá-lo?

Cigarro

Ontem você bateu na minha mão e derrubou o meu cigarro. Não importa, acendi outro mentalizando você. Deixo aquela guimba pra outro desesperado.
Porque tudo quando dá errado, não tem caminho, não tem telefone, não tem uma moeda no chão… Mas tem sempre uma bituca de cigarro pra aliviar a dor.

O movimento

Beleza. É disto o que se trata. É isso que os teus olhos e os meus querem.
A beleza é o que faz as palavras serem notadas. É o que desconcerta o já conhecido. É o que toca, seja lá o que for de tocável, com graça e meiga exuberância.
O “mais” belo não importa.
O que é belo também não.
Não falamos de padrões, ou comparações, ou objetos da beleza.
Falamos do belo exaltando com toda sua benevolência o tão mais lindo de tudo.
Nossa proposta é tornar leve o fardo de viver num mundo de obsessões. É de por conteúdo nos parnasianos. É de exaltar a beleza existente em tudo. Diminuir o desespero do tempo, contido em agendas, anúncios e reuniões de trabalho.
Queremos o mundo mais belo que faremos por merecer. Beleza. Não importa onde esteja.
Buscaremos em tudo sua mais pura beleza.

Precisando de um porre inspirativo

Fui ao mercado e peguei tequila, cerveja e vodka. Tudo em pequenas doses, porque junto da necessidade de um porre tenho o bom senso, ou – puta merda- o medo – medo do que o porre possa me causar.
E estive andando nos corredores do supermercado com as garrafinhas na cesta pensando em algo pra acompanhar. E de repente me bateu um desgosto de me embebedar, por que parecia que a vida não ia bem, e a vida ia, e eu andando na sessão de bebidas do mercado parecia um “sem ninguém”, e eu não era, e logo sairia daquele mercado de mãos dadas com alguém, levando umas doses de álcool, pra quem sabe mais um porre. Desgosto. Precisando mesmo de um amor. De uma paixão estonteante, daquelas de fazer perder o embalo, cair bêbado na cama sem ter bebido e ficar inebriado assim por um olhar, um beijo, um alguém. E dito assim parece não haver alguém, e há. Desgosto.

Se eu estivesse sozinho seria mais fácil. Entraria naquele corredor e apanharia a garrafa mais bonita, nem precisaria misturar, nem ser pequenas doses, uma garrafa de vinho pra passar a noite e já basta. Por que quando se coloca mais um personagem na historia tudo se complica? Adão vivia bem até colocarem Eva no seu caminho e pronto tudo complicou, é assim desde o início. É assim até agora. Talvez fosse mais fácil se eu estivesse só, mas eu não estava, e eu não preciso.

            “Peguei tequila, cerveja e vodka, o que você quer beber?”
            “Eu quero você… num copo com gelo… mexido e não batido.”

Um sorriso encabulado se seguiu, um aperto de mão, um aperto de bumbum. To precisando mais do que me embebedar, to precisando ser o porre de alguém. Então eu entendi que talvez estava desgostoso porque não tava sendo provado puro, tava ali me misturando com outras coisas, e não precisava. Dois cubos de gelo mexidos e já basta. Sem alterar o meu gosto. Só pra ser provado assim, em pequenas doses…